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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eu gosto.


Gosto do seu sorriso, da maneira que você ri quando eu digo algo engraçado. É um riso solto, corrido e ao mesmo tempo discreto, que me dá vontade de ser mais engraçada, para que você possa rir sempre mais e mais.
Gosto do seu jeito discreto - tudo aquilo que não sou - e da sua maneira de se portar, todo atento. Você não é de chamar atenção para si, mas chama a minha atenção, pois gosto de te observar observando aqueles detalhezinhos pequenos da vida que ninguém vê.
Gosto daquela troca de olhares que temos quando pensamos a mesma coisa. Isso me faz sentir acompanhada.
Gosto da sua voz. Sério. Gosto muito... e acho que nunca vou me esquecer desse som.
A cada vez que compartilha comigo um detalhe da sua infância, da sua família, da sua adolescência, sinto como se me entregasse uma moedinha a mais do seu tesouro valioso. E descobri que sou ambiciosa, pois quero esse tesouro completo.
Eu gosto de te zuar. Ah, isso você já deve ter reparado. Estou tentando descobrir porque eu gosto tanto assim de fazer isso, mas eu não sei. Só sei que gosto.
E até das coisas que deve achar que não gosto, sim, eu também gosto, pois também é disso que te faz ser quem é. Deve ser porque não gosto apenas de estar com você, ou das coisas que faz para mim, e nem fico projetando como você seria se fosse mais “assim” ou “assim”. Eu simplesmente gosto de você porque você é você mesmo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Acabou.


Acabou.
Quando é percebido que algo tem que morrer dentro da sua vida, não adianta: ou isso morre, ou isso te mata. Eu prefiro matar. Matar todos esses sentimentos que me aprisionam de ser quem eu realmente sou. Tudo aquilo que me torna uma sombra de mim mesma.
Durante a vida, tomamos para nós tantos lixos, e os guardamos, achando que são importantes para nós. Ao longo do tempo, eles estão tão entranhados, escondidos em algumas áreas da nossa vida, que nos confundimos e achamos que nós somos esse lixo.
Não, não aceite ser quem não é. Você não precisa ser o que os outros dizem que você é, não precisa ser como os outros dizem que deve ser e nem se render aos seus sentimentos de culpa, insegurança, medo, dúvida, carência.
Apenas tudo o que precisa fazer é jogar o lixo fora e dizer com toda sua força:
Acabou.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

vieses da bondade



Peço desculpas, mesmo sabendo que estou totalmente certa. Talvez seja meu jeito de te machucar.
Eu não acredito em brigas, só no amor.
E quero te bater com ele até criar um hematoma enorme, para ver se você aprende a amar mais do que eu.
Sei que a melhor forma de fazer isso é olhar nos seus olhos profundos e sussurrar com um sorriso enorme nos lábios: "Eu não te amo mais... mas e aí, tem alguma novidade?"
Desculpe, esse é só o meu jeitinho de mostrar que a bondade tem dois vieses: o remédio e o veneno.
Pronto. Agora é a minha hora de sorrir e ir embora.
E com a consciência tranquila. Afinal, te fiz algum mal?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Volatilidade



A vida é volátil. Tudo é volátil na vida, principalmente as pessoas que passam por ela.
Onde está o seu melhor amigo de anos e anos, agora?
Cadê sua confidente em que você contava toda as suas aventuras e os seus sonhos?
Ah, sim...verdade... ela anda trabalhando demais, por isso não pode mais te escutar como antes... aah... como se você tivesse muuuiito tempo para parar e contar seu dia para ela...
Mas me diga uma coisa? Onde estão suas aventuras? E seus sonhos, cadê? Ohh... é mesmo... se perdeu naquele dia que o vestibular te disse NÃO... e quando aquele amor da sua vida te traiu... ou quando você foi despedido daquele emprego que ganhava tão bem. Agora você não produz mais sonhos... só deseja.
Ah... e o amor? Verdadeiro e único? Não... você já disse amar tantas pessoas... tantas que já nem acredita que é possível achar uma pessoa para si a vida toda. Por que? Porque assim como tudo já passou na sua vida, você sabe que é bem provável que sua vida sentimental também passe.
Éhh... você olha aquela pessoa que você tanto dizia que amava e agora já nem se lembra mais o que é sentir aquilo que um dia sentiu. Tanto o amor, quanto a raiva. Quem sabe sinta de novo por outra pessoa... quem sabe não. Só sabe que aquilo já passou.
Se tudo na vida, então, é tão volátil assim... respiremos o cheiro de tudo. Ou então guardemos o que é mais perfumado em frascos, antes que tudo passe e o cheiro se acabe. Mas se acabou... pronto... passou... respire de novo. Assim é a vida.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A princesa, a bruxa e a Liberdade - 5. A Torre

Manda estava a postos, em cima de uma árvore. Tinha uma boa mira do porteiro da torre, no lugar em que estava. Com uma flecha envenenada certeira, de uma só vez caiu no chão.
Henrique logo depois passou pelo portão sorrateiramente. A carruagem real chegou. Manda desceu da árvore e logo falou com o cocheiro.
- Tudo pronto? O ouro está?
- Sim, chefe. Tudo feito.
- Perfeito.
O príncipe olhou uma última vez para Manda, que já se encaminhando para o portão. O sorriso dela para ele lhe deu um novo vigor para entrar na torre. Era como um sinal de paz, pelo que acontecera ontem. Entrou.
Estava tudo revirado, fora do lugar. Muitos livros em estantes enormes. Uma parte desses livros estava no chão, nas mesas. As poções ficavam numa outra estante. Algumas delas estavam em cima das mesas, abertas. O lugar parecia abandonado, mas mesmo assim era necessário cuidado, pois a bruxa poderia estar em todo lugar. O silêncio foi cortado pelo coaxar de um sapo. Ao olhar de onde vinha o barulho, viu no chão um vestido velho, de cor preta. Alguma coisa estava estranha ali. Correu para a escada, teve medo de ter chegado tarde. E chegou.
O andar de cima estava vazio. Era lá que provavelmente ficava a princesa. Uma cama humilde, com coxa florida e bonecas de pano. Em cima uma carta. Ele cuidadosamente a pegou e leu.

Sentou-se. Estava pasmo, triste, com raiva de si mesmo. Estava cansada de esperá-lo, por isso foi embora. O quanto teria sofrido nas mãos da bruxa para poder tomar essa decisão? Como ela conseguiu sair da torre? Para onde teria ido? Não sabia o que fazer. Levantou-se e tentou achar qualquer evidência de seu paradeiro. Estava desnorteado.
- Ela deve ter escrito em algum lugar, deixado alguma pista em algum lugar de onde ela está agora.
Procurou na cômoda de roupas. Na primeira gaveta, após revirar vários corpetes e roupas de baixo achou um pequeno caderno. Abriu em alguma parte aleatória e descobriu que era seu diário.

Hoje está chovendo e trovejando. Eu estou com medo. Eu quero chamar meu papai e a minha mamãe. Meu papai e minha mamãe não estão aqui. Eu estou sozinha. A bruxa está lá embaixo.”

A letra parecia bem rústica e a escrita simples. Talvez tivesse feito logo que veio para torre. Folheiou mais uma vez.

Me falaram que um dia um homem iria me libertar da torre. Mas por que todos eles passam e vão embora”.

Folheou de novo. Dessa vez se sentou.

Meus planos estão dando certo. Pelas minhas contas hoje estou fazendo 17 anos e como presente aprendi fazer transformações. O porteiro capturou qualquer que passava e o trouxe a torre. A bruxa me ensinou e eu o transformei num sapo. Estou tentando sair daqui, então era ou a vida dele, ou a minha. Não tive escolha. Brianna acha mesmo que quero ser uma bruxa e está me criando como uma filha. Daquele jeito dela.”

Brianna está orgulhosa dos meus avanços. Mal sabe ela que não estou fazendo isso para agradá-la. Mas acho que seus cuidados não são de mães. Parece que está tentando me seduzir, pois tem me tocado demais. Mais uma arma contra ela.”

Plano:
- Seduzir Brianna.
- Colocar pó do sono no vinho.
- Quebrar sua varinha mágica (precaução)
- Transformá-la num sapo.
- preparar poção de invisibilidade.
- sair sem que o porteiro perceba, com o que puder carregar.

Não, não vou matá-la. Pelo menos devo todas essas lições de magia a ela. “Até que ela consiga desfazer o encanto, estarei longe.”

Aquela foi a última pagina do diário. Pelo visto deu certo o plano e ela não havia voltado para contar o resto. Ou não havia dado certo e ela não tivera a chance de viver para terminar a história da sua vida? Estava preocupado. Deveria tê-la salvado antes. Talvez antes que ela descobrisse tanta malícia. Abriu em alguma página no começo do diário, pois não acreditava que aquela menininha com medo do trovão, pudesse ser a mesma que seduziria uma bruxa, para transformá-la em sapo.

A bruxa disse que eu não chamo Marie. Meu nome é Deus do Oculto. Manda.”

O diário caiu no chão. Não precisava ler mais nada. O plano da princesa havia dado certo. E ela ali, bem do meu lado e eu não a percebi. Por que não me contou a verdade? Queria que eu a descobrisse por mim mesmo. Sempre esteve tão perto! E mentiu para mim dizendo que vinha de não sei aonde, sobre povoado destruído por igrejas e coisas do tipo. Estamos quites, pois eu não a salvei e ela mentiu para mim.
A noite anterior voltou à memória.
- É de mim que ela gosta. E eu tão confuso, pensando se poderia salvar Marie, tendo um sentimento por Manda, e elas são a mesma pessoa.
Desceu correndo aquelas escadas com tanta coisa na cabeça. Ela é uma princesa, eu posso me casar com ela. Nossa, é uma mulher tão encantadora, apesar de turrona e cheia de engenhos. E é linda, a mais linda dessa região, com toda certeza. Marie, princesa Marie...
Passou pela sala de Brianna correndo, trombando em tudo, sem ver nada. O sapo pulou a sua frente e o assustou.
- Sai pra lá, Brianna!
Saiu da torre.
- Manda! Manda!
Não havia ninguém em frente à torre. A carruagem também não estava lá. Correu e foi para estrada. O porteiro estava estirado no chão, com uma flecha em sua perna.
- O que aconteceu?
- A bruxa! Foi a bruxa Manda. Ela fugiu com a carruagem cheia de ouro.
Com muito ouro. Não foi difícil encontrar o cofre do palácio e dopar os guardas a noite. Talvez o mais difícil fosse encontrar um comparsa que acreditasse de verdade que ela iria dividir o ouro com ele e ainda por cima ganharia seu amor. O cocheiro real serviu para essa função. Se afastando cada vez mais de Arenosa, seguiu para algum lugar desconhecido, onde talvez esquecesse bruxas, torres e príncipes, sendo esse último o que mais gostaria de ter esquecido.
O príncipe olhou o fim da estrada, mais nada além do céu poderia se ver. Estava sozinho.

E viveram felizes para sempre.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A princesa, a bruxa e a Liberdade - 4. Incertezas (cont.4)

Uma semana se passou depois desses acontecimentos. Amanhã seria o dia em que salvariam a princesa Marie. Era um tempo de apreensão para todo o reino. Preparavam festa para Marie, que seria recebida num cortejo na rua principal da cidade ao som de música e dos aplausos de toda a população. E enquanto isso, o palácio a aguardava com um lindo baile. E naquela noite, Henrique não conseguia dormir. Estava na sacada real, vendo as estrelas e pensando em tudo. Como seria Marie? E como seria enfrentar a bruxa Brianna? Daria conta dessa missão ou seria transformado em algum animal asqueroso? E se não gostasse de Marie? Sim, ela é aquela mulher virtuosa de que todos falam. Mas e se nada vier ao coração e não sentir que a ama? Mesmo assim tenho que passar minha vida inteira ao lado dela só porque a salvei?
- Não consegue dormir?
Ele se assustou, mas logo reconheceu a voz.
- Não. Pelo visto você também não.
- Isso acontece de vez enquando. Preparado para amanhã? É o seu grande dia.
- Na verdade não.
- Não?! Nossa, podemos repassar a estratégia então! É...
- Não, não é isso.
- O que é?
- Você já amou alguma vez?
Essa pergunta a incomodou. Tirou os olhos dele por um instante, e olhou as estrelas. Um pouco sem graça, respondeu com outra pergunta.
- Mas que pergunta agora, por quê? O que interessa se eu já amei?
- Eu não sei o que eu sinto de verdade. Passei a vida inteira sonhando em libertar essa mulher e dizendo que a amo, e hoje eu não sei dizer se o que eu sinto é amor de verdade.
- Estamos no mesmo barco.
- Estamos? O que tem a me contar?
- Não tenho nada a te contar.
- Por quem está apaixonada?
- Eu? Apaixonada?! Sou uma bruxa, esqueceu?
- Uma aprendiz de bruxa.
- É pelo Carlos? Falei para não se envolver com ele. Olha essas coisas no que dão.
- Que Carlos? Acha! Não! Nem o conheço. Ele é arrogante, cheio de si. Todos os príncipes na verdade são, mas ele...
- Todos os príncipes são arrogantes? Não acha que está generalizando?
- Da mesma maneira que todas as bruxas são más.
- Você ganhou. – e riram.
- Você é uma pessoa maravilhosa, Manda. Queria que soubesse disso antes de amanhecer.
Ela ficou encabulada e não soube o que dizer.
- Sabe quando você tem um plano completo de vida e simplesmente alguém chega e ao mesmo tempo em que ajuda, desfaz tudo? Isso porque essa pessoa chega iluminando tudo e te mostrando que o seu plano pode estar errado. E eu já não tenho certeza do que quero fazer.
- Não precisa saber...
Eles se olharam sob a luz das estrelas no céu. A vontade de Henrique era de beijá-la. Parecia que suas duvidas estavam sanadas, como se o que tivesse dito a ele revelasse o seu interior. Aproximou-se dela, mas algo o impeliu. Como assumiria um casamento com uma bruxa, e a desistência de um plano de ação de salvar uma princesa, assim do dia para noite? E se ele se arrependesse dessa decisão que estava tomando agora? Ela não disse sentir o mesmo. E se de fato não sentisse? Mais dúvidas estavam no ar.
- Desculpe, Manda. Desculpe.
Saiu atordoado de perto dela e foi seguindo para seu quarto.
- Príncipe!
Ele virou-se para ela.
- Seguimos o plano amanhã?
Não respondeu de imediato. Na verdade não queria responder agora aquela pergunta. Engoliu a seco, e disse o que era preciso.
- Sim, seguiremos o plano. Até amanhã.
- Até amanhã.
Voltou a olhar a noite no céu limpo e estrelado. Estava sozinha.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A princesa, a bruxa e a Liberdade - 4. Incertezas (cont.3)

No quarto, Manda pensava em tudo que estava acontecendo nesses últimos dias. Pensava na estratégia que haviam criado para salvar Marie da torre. Tudo já estava pronto. Ela teria a função de atirar uma flecha certeira no porteiro, vigiar e dar cobertura, enquanto ele, sorrateiramente entraria na torre e acabaria com a bruxa, tomaria a princesa e a levaria na sua carruagem para serem felizes para sempre. Fazer esse plano gerou muita discussão na mesa de reuniões, pois ela discordava da decisão dele de levar guardas.
- Se fosse para você salvar a princesa com ajuda de guardas, poderia ter feito há anos atrás e não precisaria da minha ajuda para ensinar sobre bruxas.
- Então eu deixarei os guardas lá fora e entro...
- Esqueça os guardas, Henrique!
- Só quero ser cauteloso.
- Não entende a magia? Rapunzel foi salva com ajuda de guardas? Fiona foi salva por ajuda de guardas?
- Mas ele era um ogro!
- Pois bem, salve com a ajuda da sua guarda e a magia não funcionará. Não ganhará o coração dela...
- Vou ganhando com o tempo.
-... E será conhecido como príncipe Henrique, o covarde. Não terá as glórias de ser o salvador de Marie, a bela princesa, pois a fama será dada aos guardas que o ajudaram.
- Então, sem guardas.
Aparentemente resolvido. Contudo, o capitão da guarda interferiu achando que ela estava ditando muito as coisas na operação e que achava importante a participação dos oficiais. E agora a noite ela relembrava as acusações do capitão e ria da discussão que antes a deixou tão nervosa, pois não deu em nada. No fim, ficou resolvido não envolverem os guardas na missão, por conselho do rei, que só deixou Manda se envolver no dia da missão por muita insistência de Henrique. Era tudo uma bobagem para ela. Onde já se viu um príncipe envolver tanta gente para salvar uma princesa? Isso a fez pensar no que Henrique pensava da princesa. Com certeza a colocava num pedestal, onde nenhum outro mortal estaria. Imaginava que sua beleza cativava qualquer homem que a visse e que ela era dona das mais preciosas virtudes das mulheres. Mas e se ela não fosse assim? Fosse uma mulher comum, com todos os defeitos de uma jovem qualquer? Manda se olhou no espelho. Estava pronta para dormir. Colocou a mão em seu rosto e deslizou até seus cabelos longos.
Um toque na porta a surpreendeu. Não estava esperando nada há essa hora. Abriu. Era Henrique.
- Me deixe entrar antes que alguém me veja.
Ela o deixou passar e fechou a porta. Henrique trazia na mão uma lamparina e um vestido de festa.
- Hoje a noite, no reino vizinho terá uma festa da nobreza. Meu pai está indisposto, não poderá ir, mas quero que você vá comigo.
- Eu? E o que vou fazer lá?
- Festas de nobres são muito chatas. Quero que você vá comigo, assim tenho uma pessoa agradável para conversar.
- Agora sou agradável? Me dê esse vestido.
Olhou-o pelo espelho. Teria que usar espartilho e achava isso uma lástima.
- Tenho que usar espartilho. Não uso isso há séculos!
- Pelo menos já usou alguma vez. Vamos, coloque o vestido, porque já mandei preparar a carruagem para nós.
Ela não queria ir, mas não tinha nada que tirasse a insistência de Henrique pra que Manda fosse. Ela foi mesmo contrariada. O vestido havia lhe caído certinho e a transformado numa nobre e quiçá uma princesa, de forma que o príncipe não parava de olhar para ela, admirando sua beleza, o que fez Manda ficar mais sem graça e com menos vontade ainda de ir à festa. Fez um penteado simples, com todo o tempo que a pressa poderia proporcionar e foram para a festa. No caminho a maior reclamação era o espartilho. Ela perguntava-se porque não relutou ainda mais em ir, já que previa que essa festa não seria das melhores.
Chegaram ao destino. O lugar estava lotando. Homens e mulheres todos mostrando seus status nas roupas e nos tratos.
- Oh, príncipe Henrique, seja bem vindo! Quem é essa dama encantadora que trás?
- Sou...
- Ela é a condessa de Moniére. Veio de Veneza visitar com seus pais o nosso humilde reino de Arenosa.
- Encantado, condessa! – e beijou sua mão, colocando seus olhos cor de mel nos olhos dela. – Príncipe Carlos, desse humilde reino de Sólis, ao seu imenso dispor.
Ela o reverenciou, sem nada dizer, apenas retribuindo o mesmo olhar. O príncipe se retirou, com toda educação.
- Não gosto dele. Nunca vi mais trambiqueiro. Não sabe dizer a verdade e corre atrás de todas as mulheres que vê.
- Eu o achei adorável. E ainda com todas essas virtudes...
- Olha, tente se comportar aqui, afinal não estamos numa taverna. Você é a condessa de Moniére de Veneza. Fala nossa língua porque foi criada em três idiomas diferentes.
- Oui, je vais boire un verre.
Ela saiu para se servir de vinho, enquanto Henrique a olhava intrigado, por saber além de bruxaria, falar francês. Nesse espaço de tempo, foi abordado por alguém que não queria.
- Príncipe Henrique!
- Priscila de Cantuann!
- Há quanto tempo não o vejo!
- Sim, é verdade.
Era filha Condessa de Cantuann: apaixonada por ele desde quando se deu por gente. Uma loira vistosa a vista, virtuosa, mas com o defeito do ciúme excessivo, algo que não era bem visto pelos homens. Nisso já completara quase trinta anos e ainda não estava casada. Mas esperava pacientemente que um dia o príncipe de Arenosa a pedisse, mas ele mal queria vê-la.
Enquanto isso, Manda observava a festa, tomando um gole de vinho, às risadas, observando o aspecto de Henrique ao lado de Priscila de Cantuann.
- Se divertindo na festa?
Era o príncipe Carlos, um moreno com o rosto de um galanteador.
- Oui, me divertindo muito.
- Quer dançar? Garanto que se divertirá ainda mais.
- Oh, pourquoi pas?
Deu a mão a Carlos e entraram na dança medieval. Manda sorria, relembrando de algo que já havia acontecido com ela alguma vez. Era tudo nostálgico da sua terra distante. E nesses sorrisos trocava olhares com o príncipe que lhe sorria com afeto. A dança os envolvia, enquanto todos ao mesmo passo dançavam conforme a melodia. Henrique parou tudo que estava fazendo, a conversa que tinha agora com nobres de Sólis, e ficou admirando aquela cena, aquela troca de olhares, aqueles toques leves que Carlos o dava em sua cintura quando passavam perto e como ela o retribuía dizendo coisas rápidas perto de seu ouvido. E ele o mesmo. Aquilo o incendiava com uma raiva e ao mesmo tempo uma tristeza de forma que nunca o havia sentido antes. A conversa em que estava prosseguia e ele nem sabia quando havia parado de prestar atenção, mas só conseguia olhar ali e escutar aquela música alegre que para ele se tornava funesta. Pediu licença para os amigos na roda e foi para a sacada do palácio.
Por que estava sentindo-se triste? Vai ver era de ver uma moça encantada por alguém que não a merecia. Estava querendo enganar quem? Ela é uma bruxa, talvez seja ela que não o mereça, afinal é um príncipe. Sim, ela é uma bruxa, não é uma moça, talvez nem virgem seja mais. Não, não é mais donzela de forma alguma, pelas roupas, pelo despudor. Ela ficou seminua para mim na primeira vez que nos vimos. Ele não sabe a confusão em que está entrando. Mas ela se confunde com uma mulher de bem, pois está me ajudando, sem ter cometido todos aqueles crimes de que falaram. Mas será mesmo que não cometeu? Bruxas são ardilosas, cheias de armadilhas, não merecem nosso apresso. Mesmo que nos ajudem? Ah, por que estou triste? Por que estou com raiva? O que ela tinha que dançar justamente com Carlos, ele não presta... Henrique ouviu a voz de Manda se aproximando.
- Ah, príncipe Carlos, é um excelente dançarino.
- Oh, é pela companhia que a dança enche de graça.
- Como é galante, majestade! Un gentilhomme!
- Obrigado! Quer que te pegue uma bebida, senhorita?
- Aceito, grâce!
Carlos saiu. Manda viu Henrique, que disfarçou e fingiu não tê-la visto. Ela se aproximou dele.
- Bonne nuit!
- De onde aprendeu o francês?
- Tenho parentes lá. Morei quando era criança.
- Tem muitos lados seus que não conheço.
- Todos nós temos lados aos quais ninguém conhece inclusive você, não é?
- Sim, todos nós temos. Dançou bastante?
- Muito! A festa não está tão chata como disse.
- Com o principezinho do seu lado, não é?
- Sim, o príncipe dança muito bem, e também é muito bonito e educado.
- Eu não falei que não gostava dele? Qual parte disso você não entendeu?
- E o fato de você não gostar dele, eu não posso gostar?
- Não pode. Conheceu ele agora, eu o conheço desde criança, sei o que ele faz com as mulheres.
- Se não entendeu ainda, eu sei me cuidar sozinha! Você quer sair comigo, mas não quer arcar com a conseqüência de andar com uma aprendiz de bruxa e me disfarça de condessa e depois se diz preocupado comigo?
- Não é isso. É pra sua proteção.
- A proteção da sua imagem como príncipe. Se não me dá valor, não tem direito algum de ter ciúmes.